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Foto: Arquivo EM (Jornal Estado de Minas)
O Brasil vivia uma ditadura militar, presidido pelo general Emílio Garrastazu Médici. Tinha início a Guerrilha do Araguaia, no Pará. Na Festa da Uva, em Caxias do Sul, realizava-se a primeira transmissão em cores da TV brasileira. Eram lançados o álbum “Acabou Chorare”, pelos Novos Baianos, e o filme “O Poderoso Chefão”, dirigido por Francis Ford Coppola. O presidente americano Richard Nixon renunciava após o escândalo de Watergate. O Congresso Nacional aprovava o projeto de criação da Telecomunicações Brasileiras S/A (Telebrás). Acontecia, em Estocolmo, na Suécia, a primeira grande reunião global de chefes de estado, organizada pela ONU, para tratar de questões ambientais.
No esporte, o mundo abalado pelo Massacre de Munique, onde terroristas do grupo palestino Setembro Negro mataram atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos.
O Brasil era, mais do que nunca, o país do futebol, depois que a Seleção Brasileira encantou o planeta ao conquistar, de maneira brilhante, a Copa do Mundo de 1970, disputada no México.
Esse foi o cenário em que o Atlético, Campeão Brasileiro de 1971, disputou a Copa Libertadores da América pela primeira vez.
“Era a primeira vez que o e o Atlético participava de uma Libertadores. O próprio Telê Santana nunca tinha participado e teve essa grande oportunidade”, diz o ex-jogador Humberto Ramos, que participou da competição. “A expectativa era muito grande”, afirma.
Era a 13ª edição da disputa continental, que havia sido criada em 1960, com o nome de Copa dos Campeões da América.
Cinco anos mais tarde, o torneio foi rebatizado com o nome de Copa Libertadores da América, em homenagem aos heróis da independência de países sul-americanos, como Simón Bolívar, José de San Martín, Pedro I, Bernardo O’Higgins e José Gervasio Artigas, entre outros.
O Nacional, do Uruguai, defendia o título da competição, tendo superado, no ano anterior, o então tricampeão Estudiantes de La Plata, da Argentina.
Foram 20 participantes na Libertadores de 1972. Na fase inicial, 19 equipes (o Nacional, atual campeão, entraria na segunda fase) foram divididas em quatro grupos de quatro times cada, com um grupo de três. As equipes se enfrentaram dentro das chaves, em jogos de ida e volta. Apenas o primeiro colocado avançaria para a segunda fase.
Dirigido pelo técnico Telê Santana, o Galo ficou no grupo 3, completado por São Paulo e os paraguaios Olimpia e Cerro Porteño.
“O que ficou muito claro para mim naquela época foi a dificuldade em relação aos times do Paraguai e da Argentina, por questão de violência, e a conivência da arbitragem”, diz Humberto Ramos.
“A coisa era complicada na Argentina e no Paraguai, você não conseguia passar por essas fases por causa dos esquemas que existiam”, afirma. “Dentro de campo, você era atacado pelo adversário toda hora e o juiz não tomava decisão”.
O Atlético fez os três primeiros jogos no Mineirão, com três empates. Na estreia, dia 30 de janeiro, empatou por 2 a 2 com o São Paulo. No dia 1º de março, igualdade por 1 a 1, com o Cerro Porteño. Em 5 de março, empate sem gols com o Olimpia.
No dia 9 de março, o Galo empatou sem gols com o São Paulo, no Morumbi. No dia 16, empatou por 2 a 2 com o Olimpia, no estádio Defensores del Chaco, em Assunção. A partida foi encerrada antes da hora porque o Atlético teve cinco jogadores expulsos (Ronaldo, Grapete, Dario, Lôla e Oldair) e ficou apenas com seis atletas em campo. O resultado de 2 a 2 prevaleceu, mas o Olimpia ganhou os pontos.
“A gente estava ganhando e eles armaram, o juiz deu pênalti, arrumou uma confusão até empatar o jogo. Expulsou vários jogadores”, rememora o ex-atleta alvinegro.
Humberto Ramos relembra que, no estádio Defensores del Chaco, a torcida ficava muito em cima do campo. Segundo ele, no empate por 2 a 2 com o Olimpia, o árbitro inventou um pênalti contra o Galo e, quando o goleiro Mazurkiewicz abriu a mão para ficar atento ao pênalti, um torcedor deu uma estilingada na mão dele, com uma bolinha de gude. Quando o arqueiro atleticano segurou a mão para ver o que era, o jogador paraguaio bateu o pênalti rapidamente e fez o gol. “Para você ter uma ideia de como que era”, diz.
Ramos contou que os torcedores adversários ficavam no alambrado jogando pedra e que, quando estava saindo de maca, teve que descer correndo e entrar para o vestiário.
“Acertaram a cabeça do Gregório, que era nosso massagista, abriu a testa dele, ficou bastante ferido”, comenta.
Ele relata que houve uma grande confusão na partida, com os próprios policiais a intimidar, empurrar e bater com cassetete nos jogadores do Atlético: “Foi uma coisa terrível”, diz. Para o ex-atleta alvinegro, o que ficou muito claro foi essa questão da violência: “Eles usavam dessas ferramentas para levar vantagem”.
Três dias depois, no mesmo local, o Alvinegro perdeu por 1 a 0 para o Cerro Porteño. O Galo terminou a primeira fase em 4º lugar no grupo 3, que teve o São Paulo como primeiro colocado.
O Independiente, da Argentina, se sagrou tricampeão ao derrotar o Universitário, do Peru, na final do torneio. O Atlético foi o 14º colocado e retornaria à competição em 1978.