Auxiliar analisa vitória no Brasileirão
Pergunta: O Atlético começou com o Dudu no lado direito e, depois, no segundo tempo, ele veio para a esquerda. O Igor Gomes entrou no lugar do Scarpa. Queria que você falasse sobre a estratégia da partida e como os gols foram saindo no segundo tempo…
DIOGO ALVES: “Inicialmente, eu acredito… Outro dia falei sobre as relações socioafetivas que a gente busca constantemente. E, claramente, uma das poucas relações socioafetivas que temos encontrado é essa entre o Dudu e o Guilherme Arana. O plano de jogo, em si, demandava jogadores com perna hábil para poder encontrar espaços na defesa do Bahia, uma defesa bastante conhecida pela forma de atuar, que fecha o eixo central. Pensamos em ter jogadores com pernas invertidas, destros na direita e canhotos na esquerda, para que pudéssemos atacar um bloco compacto a nível vertical. Como sempre, a gente tem tentando encontrar soluções dentro do próprio jogo, é assim no futebol brasileiro, e a gente tinha uma carta na manga, uma carta mais segura, que a gente reconhece que é a relação do Dudu com o Arana. Isso nos fez bem. Claro que a expulsão (do Bahia) condicionou a partida, precisamos levar o jogo de forma mais ampla, não somente com a troca de peças, que te faz ganhar ou perder o jogo. Vamos encontrando soluções e seguindo rumo a uma invencibilidade importante. Temos muito a remar daqui em diante até a final (da Copa Sudamericana)”.
Pergunta: O Atlético não vencia por essa margem de gols desde maio. Teve gol do Hulk, simbólico 500 da carreira, golaço de falta de Igor Gomes, todo mundo foi abraçá-lo, assistência do Rony para o Biel. É uma recuperação de atletas em momento importante. Qual a visão da comissão técnica?
DIOGO ALVES: “Primeiramente, eu acho que a nossa vitória foi incontestável. Mesmo antes da expulsão, havia um domínio, um controle da ação ofensiva, sobretudo. Volto a falar, acredito que a gente tende, no futebol brasileiro, relativizar ou dar destaque individual demasiadamente. O futebol é um esporte coletivo, onde as relações, quanto melhor e mais tempo as relações vão se consolidando, melhore vamos ver os jogadores. Entendo a frustração do torcedor e da própria imprensa sobre alguns jogadores, mas acredito que, desde o momento que chegamos aqui, nosso objetivo não era só recuperar alguns jogadores, era potencializar a forma coletiva que daria à nossa equipe um maior protagonismo. Hoje, por coincidência ou não, começamos a encontrar essa melhor forma dos jogadores no contexto coletivo, uma equipe que encontra melhor maneira, melhor relações. Sem dúvida, estar mais longe da zona de rebaixamento vai ajudar que essas relações fiquem mais positivas. Porque no momento de dificuldade, sempre é difícil dar uma resposta. Estamos bastante contente pelo nosso trabalho, do trabalho dos atletas, que é de capacidade, de esforço, de boas intenções. Acho que hoje, graças a Deus, a gente consegue trazer algumas respostas individuais, mas sem esquecer que dentro de um contexto coletivo, no futebol, não aconteceria”.
Pergunta: Sobre jogadores, o Everson completou a marca importante de 100 jogos sem sofrer gols no Brasileirão, sendo 73 pelo Galo. E numa semana de Data Fifa que o Ancelotti não o convocou. Como fazer lidar com esse momento do Everson, que é um dos principais goleiros do Brasil, e que o momento dele vai chegar…
DIOGO ALVES: “Eu falei do Everson na última entrevista, em Porto Alegre. Volto a falar, o esporte é coletivo. Ficamos felizes pelas marcas individuais, entram na história da instituição, da história da carreira do jogador, é inegável esse valor. Mas, sem dúvidas, nesses 100 jogos sem sofrer gols do Everson, acredito que há uma participação importante daqueles que o ajudam a defender a porteira. Não é tão fácil se defender estando exposto. Valorizo muito a marca do Everson. Acredito que, na competência da Seleção Brasileira, que tem o Rodrigo (Caetano), que passou aqui, com o corpo técnico do professor Ancelotti, que avalia, analisa. Esperamos que eles sigam analisando. Sabemos que isso acontece. E quando acontecer, o Everson estará muito preparado, assim como outros profissionais que aqui atuam e que podem trazer mais marcas e alegrias na história do Atlético”.
Pergunta: Fazendo algumas fotografias de forma inconsciente, vi que a base do triângulo é muito utilizado nos apoios, os jogadores fazem leitura de jogo, dão opção. Queria que você falasse sobre processos estabelecidos.
DIOGO ALVES: “Eu acredito que a gente vai buscando mais figuras geométricas e essas figuras precisam ser melhor trabalhadas e cada vez mais inconscientes. Isso trará fluidez. O nosso próprio passo na estrutura é encontrar fluidez. Quando a gente é, de fato, geométrico ou rígido, pode ser ainda mais fácil o entendimento do adversário. A gente não só tenta criar relações de triângulo, mas de losango, de pentágono. Essas formações vão gerando relações mais curta, evita correr para trás, evita transições mais rápidas do adversário, como vimos os 10 primeiros minutos do Bahia. O objetivo é encontrar mais fluidez, mais relações socioafetivas. Falei isso outro dia, algumas pessoas não entenderam, mas é gerar conexões que nos façam nos aproximar mais fácil do gol adversário”.
Pergunta: Sobre usar jogadores nas pontas com a perna dominante, foi pensando também na bola áerea? Mas a defesa do Bahia estava bem. O que você conversou com os jogadores no segundo tempo? No gol do Hulk, o Arana olha para a área, ia dar o passe no alto, mas dá o passe rasteiro para o Hulk. Se me permite, a relação do Hulk e Dudu, o Hulk é potencializado quando tem um companheiro de ataque que joga pelos lados…
DIOGO ALVES: “Para nós, estava claro que o jogo pedia essa formação com jogadores na perna dominante. E a gente tende a relacionar perna dominante com cruzamento, e cruzamento com aéreo e não temos altura para dominar esse duelo. Era importante que os nossos cruzamentos não fosse feitos na altura defensiva do Bahia, que estava muito nem postada nesse sentido. E, depois, conforme foi passando o primeiro tempo, identificamos que o nosso jogo estava previsível, com pouca variação. A gente costuma falar na linguagem do futebol que fomos treinando o Bahia para defender cruzamentos. No intervalo, a pauta era que tivéssemos mais variações de cruzamentos. Com a ida do Dudu para a esquerda, teríamos o cruzamento de perna trocada, movimentos profundos do Arana, que eram ataques em outra zona, e ainda tínhamos pedido ao Renzo e ao Junior (Alonso) girassem o apoio nos corredores laterais para ter mais cruzamentos distantes. Claramente, o Bahia cede espaço e oferece que ele seja atacado por fora. Precisávamos ser mais variáveis nessa conduta, para não ficasse criando situações de cruzamento aumentando a estatística e diminuindo o que seria a expectativa de gol”.
“Sobre a relação do Dudu e Hulk, volto a falar, acho importante criar relações dentro do sistema coletivo. O Hulk teve grandes relações desde que chegou ao Atlético, com Paulinho, com Vargas, com Kardec. Sabemos disso. Mas importante que a equipe crie relações, independentemente de nomes próprios. Isso trará mais força ao Atlético, sem menosprezar as relações construídas por jogadores, como esses que você mencionou para mim”.
Pergunta: O Atlético teve uma final internacional em 2024, mas brigou para não cair no Brasileiro. Agora, o Galo vai somando pontos. Isso dá mais tranquilidade para a final da Sudamericana?
DIOGO ALVES: “Sem dúvida nenhuma. Comentamos no vestiário de que eu não sei o caminho até a final. Não sei, de fato, o que fazer. Eu sei o que não fazer. Relaxar não é o caminho. Não temos dúvida que o nosso grupo, como direção, comissão e atleta, que temos que somar pontos o quanto antes para se livrar do risco de rebaixamento, e para chegar em grande estado de forma na final da Copa Sudamericana, que fará diferença entre ganhar e perder, que foi o que aconteceu um pouco no ano passado, infelizmente”.
Pergunta: Queria falar sobre a parte física. Quando a comissão chegou, foi falado que o time não estava tão apto fisicamente. E, agora, crescendo na hora certa, fazendo boas jogadas no segundo tempo. Você vê evolução na parte física? E qual será a estratégia até a final da Copa Sudamericana?
DIOGO ALVES: “Eu acredito que a parte física isolada não te diz muita coisa. Tenho muito respeito da comissão anterior. Não tenho dúvidas que fizeram todo o esforço para fazer o Atlético forte. O futebol, muitas vezes, não traz resultado ainda que você trabalhe muito para conquistar. Pode ser um dos poucos empregos do mundo, ainda mais nesse calendário, que não premia grandes trabalhos. Você quase não tem tempo de preparação. Se a gente vincular com outra profissão, um bom profissional alcança um nível de conquistas interessante. O futebol, muitas vezes, não premia o grande trabalho. Acredito que a equipe melhora fisicamente a partir do momento que ela se reconhece como uma forma coletiva. É assim que a gente trabalha com o Jorge. O Jorge, prioridariamente, pouco trabalha essa relação. Mas o que a gente mais busca é que a equipe se reconheça dentro de uma forma, e que essa forma demanda algumas questões e esforços que são trabalhados diariamente”.
“Sobre o plano daqui em diante, seguimos na luta para escapar do rebaixamento, para colocar a cabeça no travesseiro de forma tranquila todo o fim de semana, daqui até a final da Copa Sudamericana. Rodando os jogadores, mas não por questão física nem de planejamento, mas porque cada adversário tem características próprias e demanda planejamentos diferentes. Também não é comum no nosso futebol, e muitas vezes é apontado como falta de entrosamento. Não existe esse termo entrosamento no nosso trabalho, existem relações. Algumas relações são criadas mais fáceis, e temos que evitá-la perdê-las, pois elas nos fazem ganhar jogos, mas, basicamente, o objetivo daqui para o final é único: não relaxar e chegar o mais forte possível na final da Copa”.
Pergunta: Queria saber o que aconteceu no intervalo para o Atlético transformar a superioridade em chances de gols e em gols. Vimos uma melhora absurda no resultado final…
DIOGO ALVES: “Digo que são muitos fatores, vinculados ao contexto do jogo, o jogo vai passando e há tendência clara de domínio do mandante. A expulsão te condiciona a atacar mais, a atacar com menos peso, controle maior das transições do Bahia, que tem 20 rodadas no G-6, que evolui no modelo de jogo, porque tem um treinador fantástico, que tem trabalhos grandes no São Paulo, no Fortaleza. Tudo que vai acontecendo no jogo é contextual. Talvez mereceríamos o gol no primeiro tempo, pelo volume de jogo. Mas não teve nenhuma conversa que não fosse ajustar os pontos, como a variação de cruzamentos nos pontos que iriamos atacar. Mas o futebol é muito mais amplo e rico do que movimentos de xadrez. É uma série de fatores que, muitas vezes, não estão ligados a nós”.
Pergunta: Houve variações no jogo, com os atacantes, mas o Hulk sempre posicionado como um pivô, sempre o Galo explorando ele como homem-gol, inclusive ele faz a marca dos 500 gols na carreira. É o melhor finalizador do Galo. A tendência é explorar o Hulk como esse homem-gol?
DIOGO ALVES: “Eu acredito que a posição que o Hulk atuou na carreira, muitas vezes mais aberto indo para dentro, tem clara vinculação ao gol. E não podemos desperdiçar isso, ainda mais nesse momento que ele buscava o gol. A gente tem buscado criar relações para facilitar o processo par ao Hulk, para que ele volte a nos dar vitórias. Muito contete pelo gol dele, pela participação no jogo, defensivamente e ofensivamente. O Hulk, próximo do gol adversário, gera um perigo imensurável para qualquer adversário”.
Pergunta: Até os 20 minutos, o Bahia tinha futebol superior em relação ao Atlético. O que foi mudado taticamente para o Galo se acertar em campo e ser dominante?
DIOGO ALVES: “A gente ainda vincula o sucesso ou fracasso do jogo na figura do treinador. E muitas vezes não é o treinador que participa ou tenha incidência sobre o bom ou ruim. Concordo que o Bahia, de organização ofensiva, está dentro dos melhores do torneio, perto do Flamengo, que tem qualidade para isso, o próprio Mirassol que faz grande papel ofensivo. O Bahia não é diferente e a gente sabia que a exigência do jogo, na fase defensiva, seria importante. O Bahia domina em ambos os lugares, tem um tempo de processo e cultura de jogo vinculado. Acredito que tenhamos que suportar os minutos iniciais para não sofrer o gol. A estratégia era atacar de imediato. Como sempre, há um confronto e dominância anímica, tática, técnica. E a figura do treinador pode, nesses momentos, não ter influência nenhuma, dentro de um próprio tempo que, de fato, você não consegue nenhuma comunicação. É mérito dos jogadores de obterem cultura de treinamento que te levam a gerar soluções dentro do próprio confronto”.
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