Por trás das chuteiras existem leitoras que encontram nos livros novas formas de enxergar o mundo
Há histórias que começam muito antes da primeira página. Para as Vingadoras Tay (Tayane Fabiano – lateral do Profissional das Vingadoras) e Bia (Ana Beatriz Batista da Silva – meio- campista das Vingadoras Sub-20) , a paixão pela leitura nasceu de diferentes experiências, ganhou força ao longo do tempo e se transformou em uma companhia que ultrapassa os momentos de lazer. Em meio à rotina de treinamentos, viagens e competições, os livros se tornaram uma oportunidade de descobrir novos mundos, aprender e olhar para a própria vida por outras perspectivas.
Essa paixão, porém, não fica restrita aos momentos de descanso. Há algum tempo, as duas atletas também compartilham suas experiências e dicas literárias com os seguidores no Instagram, dividindo descobertas, indicando obras e mostrando um lado que vai além dos gramados. Por meio de seus perfis, Bia e Tay aproximam seus públicos do universo dos livros e demonstram que a literatura também pode fazer parte da rotina de quem vive o futebol.
Embora tenham trajetórias diferentes, as duas compartilham uma característica: encontraram na literatura algo que vai além das palavras. A leitura é, ao mesmo tempo, conhecimento, descanso, inspiração e uma maneira de se conectar com outras pessoas.

Fotos: Ta Santana/ Atlético
A relação de Bia com os livros mudou quando ela chegou a Belo Horizonte. Até então, a leitura estava muito associada às atividades escolares. O contato com pessoas que admirava, entretanto, despertou uma curiosidade que logo se transformou em hábito.
“Quando eu mudei para cá, tive contato com muita gente que lia, pessoas que eu me inspirava. Eu achava muito legal que a leitura fazia parte da vida dessas pessoas. Elas eram muito interessantes, tanto profissionalmente quanto como pessoas. Eu vi que a leitura podia me auxiliar e me ajudar em algumas questões”, conta.
A partir dessa aproximação, os livros passaram a ocupar um espaço cada vez maior em sua rotina. Entre os primeiros títulos que realmente a marcaram está 12 Regras para a Vida, de Jordan Peterson. A obra trouxe uma reflexão que permanece presente em sua trajetória: a importância de compreender que, antes de ser atleta, existe uma pessoa, com sentimentos, necessidades e sonhos próprios.
“Esse livro abriu muito a minha mente sobre como nós, atletas, somos pessoas. Eu sou uma atleta, mas também sou uma pessoa, e tenho que conciliar essas duas coisas. Além disso, consegui aplicar muitos dos ensinamentos na minha vida, principalmente nas questões mentais”, explica Bia.

Fotos: Ta Santana/ Atlético
Para Tay, a aproximação com a literatura também aconteceu por meio de pessoas que a cercavam. Desde a infância, ela teve contato com os livros, especialmente por incentivo escolar e pela leitura da Bíblia, mas foi em 2022, inspirada por colegas de clube, que passou a mergulhar nesse universo.
“Eu acho que meu gosto pela leitura vem desde nova, mas não gostava de ler em grande quantidade. Em 2022, fui incentivada por algumas colegas de clube, fui me apaixonando, gostando e fiquei viciada”, relata.
A descoberta também ampliou seus interesses. Leitora de fantasia, Tay gosta de explorar diferentes gêneros e acredita que cada pessoa pode encontrar uma história capaz de despertar seu interesse. Para ela, não existe um único caminho para começar a ler. O mais importante é encontrar um livro que desperte a curiosidade.
“Eu acho que o mais importante para começar é ler o que você gosta. Depois que pega o hábito, você explora o mundo da literatura. Cada gênero encontra um tipo de pessoa. Você só precisa encontrar o seu”, afirma.
Na rotina de uma atleta de alto rendimento, encontrar momentos de tranquilidade nem sempre é simples. Treinamentos, compromissos e viagens exigem organização, mas Bia procura reservar um espaço diário para os livros, mesmo que seja por apenas alguns minutos.
“Eu tento sempre deixar pelo menos 30 minutos reservados do meu dia, antes de dormir, de manhã ou até mesmo no clube, nos intervalos das atividades. Às vezes, estabeleço a meta de ler dez páginas por dia. Não deixar um horário obrigatório também me deixa mais livre para ler quando quero”, conta.
Essa flexibilidade permite que a leitura acompanhe os diferentes momentos da semana. Em dias mais cansativos, uma história leve pode ser uma boa companhia. Em outros, a curiosidade por temas como filosofia, sociologia e história abre espaço para novas descobertas.
Para Bia, os livros oferecem uma experiência singular: a possibilidade de viver diferentes histórias sem sair de casa. E, em uma profissão na qual o futebol está presente praticamente o tempo todo, essa experiência também representa uma oportunidade de descanso.
“Você pode viver várias vidas sentada no sofá da sua casa. Não é uma forma de fugir do futebol, mas é muito bom ter um momento em que você pode ficar feliz, animada ou até ansiosa de uma maneira saudável, que é com a leitura”, destaca.
Tay também encontra nos livros diferentes formas de aproveitar o tempo. A literatura representa aprendizado, entretenimento e, especialmente, uma maneira de compartilhar experiências. Ao lado da leitura, outros hobbies, como montar cubos mágicos e acompanhar animes, também fazem parte de seu universo.
A variedade de interesses levou a atleta a compartilhar suas descobertas nas redes sociais. No início deste ano, começou a publicar conteúdos sobre os livros que lia e outras atividades de que gosta. A intenção inicial não era necessariamente criar um movimento de incentivo à leitura, mas dividir experiências que considerava especiais.
“Eu lia livros tão bons que queria que as pessoas lessem para entender o quanto eram bons. Queria transmitir a ideia de que existem livros tão bons quanto filmes e séries”, explica Tay.

Fotos: Ta Santana/ Atlético
O hábito de compartilhar livros também aproxima as atletas de pessoas que talvez nunca tivessem considerado a leitura uma possibilidade de lazer. Para Tay, uma das maiores alegrias é acompanhar a descoberta de novos gêneros por amigos e familiares.
Entre essas experiências, ela destaca a de Mayara, colega de clube que, até então, tinha o hábito de ler apenas a Bíblia e livros cristãos. Depois de receber a indicação de O Risco, Tay acompanhou, com entusiasmo, a descoberta de uma nova possibilidade literária.
“Ela nunca tinha lido um livro secular na vida. Eu me apaixonei por O Risco, que tinha publicado recentemente, e ela leu um livro inteiro, de pouco mais de cem páginas. É muito legal ver as pessoas ao meu redor gostando de ler. Você percebe que é possível, só precisa encontrar o seu gênero”, conta.
O episódio traduz uma das ideias que as duas atletas compartilham: a leitura pode ser apresentada de maneira leve, sem a obrigação de começar por obras extensas ou clássicas. O importante é despertar o interesse e permitir que cada leitor encontre seu próprio caminho.
Essa relação também ajuda a explicar a repercussão da Galeitura, iniciativa que ganhou visibilidade com Gustavo Scarpa. As duas já acompanhavam o interesse do meio-campista pelos livros e receberam com entusiasmo a mobilização em torno da literatura.
Tay, inclusive, brinca com a semelhança entre alguns de seus hobbies e os do companheiro de clube, especialmente a leitura e o cubo mágico. Para ela, ver um atleta de grande alcance compartilhando esses interesses é uma oportunidade de inspirar pessoas dentro e fora do futebol.
“Eu achei massa demais. É muito importante que atletas de destaque, que têm o holofote e a mídia em cima deles, sejam boas influências. Quando você mostra hobbies que fazem as pessoas crescerem, pode incentivar outras a descobrir coisas novas”, afirma.
Bia também acompanhou o movimento com entusiasmo. Para ela, a presença de um jogador conhecido indicando livros aproxima públicos diferentes e cria uma rede de troca de experiências.
“Fiquei muito feliz de ver que um jogador do tamanho do Scarpa começou esse movimento. Ele tem um alcance muito grande e pode fazer com que muitas pessoas olhem para os livros com outros olhos. É uma troca muito interessante, que pode ser benéfica tanto para o futebol quanto para quem está fora dele”, avalia.
A leitura também ocupa um espaço importante na formação das atletas. Para Bia, o conhecimento adquirido nos livros contribui não apenas para a carreira esportiva, mas também para a construção de uma trajetória pessoal que continuará depois do futebol.
A jogadora ressalta que a carreira de uma atleta tem duração limitada e que a formação fora de campo precisa fazer parte dos planos desde cedo. Conciliar estudos e treinamentos exige esforço, mas representa um investimento para o futuro.
“Antes de ser atleta, eu sou uma pessoa. O que vou fazer depois que o futebol acabar? É muito bom chegar a esse momento com um repertório construído, com estudos, cursos, uma faculdade, enfim, com conhecimentos que vão facilitar a vida lá na frente”, pondera.
A experiência de conciliar o futebol com a preparação para o vestibular também faz parte da trajetória de Bia. Por isso, ela incentiva outras atletas, especialmente as mais jovens, a não abandonarem os estudos diante das dificuldades da rotina esportiva.
“O futebol não é tudo, o futebol é o meio. Eu sei que é difícil conciliar, principalmente porque nós, atletas, somos atletas 24 horas por dia. Mas é muito válido tentar. Não abra mão dos estudos, independentemente da forma que você preferir estudar”, aconselha.
Tay compartilha dessa visão e destaca o potencial das atletas como referências para outras jovens. Na base, onde a formação esportiva acontece simultaneamente ao desenvolvimento pessoal, a influência de uma colega que compartilha um livro ou demonstra interesse pelos estudos pode despertar novas possibilidades.
Para ela, os atletas têm a oportunidade de mostrar que a identidade de quem vive do esporte não se limita ao desempenho dentro de campo. A leitura, assim como outros hobbies, revela interesses, estimula a curiosidade e aproxima o público das pessoas que vestem a camisa do clube.
Bia também acredita que a literatura contribui para uma formação mais completa, ao proporcionar conhecimento, ampliar o repertório e oferecer uma alternativa saudável para lidar com as exigências do alto rendimento. A atleta ressalta, ainda, que a leitura não precisa estar restrita a um único assunto: é possível aprender sobre futebol, saúde, ciência, história ou simplesmente aproveitar um bom romance.
No fim, as duas encontram nos livros algo que compartilham com o futebol: a capacidade de despertar emoções, criar conexões e transformar experiências. Entre uma página e outra, Tay e Bia mostram que o desenvolvimento de uma atleta também acontece longe dos gramados e que, muitas vezes, uma boa história é o começo de uma grande descoberta.
Fotos: Ta Santana/ Atlético
Bia
Um livro que marcou sua vida: 12 Regras para a Vida, de Jordan Peterson.
Um livro que mudou sua maneira de enxergar o mundo: Capitães de areia
O que a leitura representa: aprendizado, descanso e a oportunidade de conhecer outras histórias.
Uma dica para quem quer começar a ler: reservar um tempo diário, mesmo que sejam apenas dez páginas.
Tay
Um livro que mudou sua vida: a Bíblia.
Um livro que indicaria a um torcedor do Galo: O Risco, por sua mistura de romance, suspense e investigação.
Gênero literário preferido: fantasia.
Uma dica para quem quer começar a ler: escolher livros curtos e de assuntos que despertem interesse.
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